10/04/07

22ª versão da morte de j.*

j. nunca tinha percebido as previsões do tempo, tinha ouvido na véspera que ia chover e, afinal, estava um sol brilhante e o céu azul, portanto, resolveu que podia chegar meia hora atrasado ao escritório (tinha de ter alguma vantagem em ser o patrão) e aproveitar para um bocado de jogging matinal.
enquanto estava à espera do elevador, conheceu a nova vizinha que se tinha mudado para o outro apartamento do seu andar, era bem interessante, e pareceu reparar nas suas pernas, enquanto perguntava se ele fazia exercício com muita frequência. se calhar, um convite para jantar era uma ideia simpática para lhe dar as boas vindas ao prédio… tinha de pensar numa ementa adequada.
já estava de regresso a casa quando sentiu um cão a ladrar atrás de si, virou-se e viu um cocker spaniel a correr furiosamente na sua direcção. j. nunca tinha tido uma boa relação com cães e uma dentada de um cão pequeno com dentes afiados era uma perspectiva desagradável, portanto, entrou no talho, a primeira loja que viu aberta, com a ideia de fechar a porta e ver se o cão deixava de o perseguir.
nesse momento, o sr. aníbal estava, na entrada, a afiar um cutelo e a explicar à d. almerinda modos de cozinhar carne de avestruz. não teve maneira de evitar que j. fosse trespassado pelo afiador.
a d. almerinda ofereceu-se prontamente para explicar todo o acidente à polícia, e aos tribunais, e a quem mais fosse preciso, e o desconto de 10% a que tinha geralmente direito, por ser cliente antiga e a viúva mais cobiçada do quarteirão, passou a ser um desconto de 20%.

*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…

3 comentários:

Rui Silva disse...

Finalmente o J. morre assassinado!!
E com suborno à mistura!

rita disse...

pois que, lamento, mas tenho de defender que ele não foi assassinado, quando muito, terá sido um homicídio negligente e totalmente acidental. se eu fosse juiz, o sr. aníbal teria, na pior da hipóteses, uma pena suspensa.
e não é a primeira vez que morre por intermédio de outra pessoa, já levou com um bloco de cimento que um mestre de obras deixou cair, foi esfaqueado por uma senhora na caixa do supermercado, levou um tiro, foi atropelado por um combóio... tudo acidentes sem intenção ;)

Rui Silva disse...

nenhum deles precisou de aumento do desconto. Ou o sr. Juiz também é cliente do talho do Aníbal?