- importa-se que falemos um bocadinho sobre a vida depois da morte?
(perguntou o senhor testemunha de jeová)
- realmente, esta não é a melhor hora...
(respondi eu a tentar não lhe bater com a porta na cara)
- mas posso deixar-lhe esta informação?
(insistiu o senhor testemunha de jeová abanando um papelito sobre uma qualquer análise da bíblia)
- muito obrigada, mas sou agnóstica...
(respondi eu, sempre delicadinha, depois de considerar muito rapidamente que "agnóstica" é uma palavra que soa melhor que "ateia" - atente-se uma escolha só pelo som, a minha real posição nesta matéria não está a ser discutida nem partilhada)
- oh... não me diga isso! como é que chegou a esse ponto?
(a incredulidade nos seus olhinhos quase marejados e solidários com o meu infortúnio)
- a vida dá muitas voltas, meu senhor...
(ser misteriosa e recatada fica bem a qualquer senhora)
- mas foi alguma desilusão? algum desgosto?
(o senhor testemunha de jeová queria mesmo ser meu amigo e não devia acreditar que as senhoras devem ser misteriosas e recatadas na informação que disponibilizam)
- as voltas da vida... as voltas da vida... muito boa sorte na sua missão e olhe que a hora do jantar não é a melhor para estas visitas.
(que eu além de simpática, também sou solícita a dar palpites nas escolhas de pregação alheias)
posto isto, a grande dúvida que me atormenta: será que algum vizinho incauto abriu a porta ao senhor testemunha de jeová ou será que ele é vizinho?
5 comentários:
- importa-se que falemos um bocadinho sobre a vida depois da morte?
É óbvio que não. É o que eu faço para ganhar a vida, por isso pode aproveitar a minha promoção do dia e, por apenas 499 euros hora, fale não com um, mas com dois falecidos à sua escolha. Que me acha da proposta? Em alternativa posso-lhe colocar dentro do caldeirão, pois o senhor até que tem cara de João Ratão. O que é que prefere?
Ele bem insistiu na campainha, mas tive uma premonição e não lhe abri a porta :)
lendo os dois comentários de corrida, lembrei-me que, da próxima vez, dou um grito para o outro lado do corredor: maninha, onde é que deixamos o caldeirão para este senhor?
parece-me um bonito projecto.
A minha mãe tinha uma técnica muito boa: "Com certeza, caro senhor. Entre e vamos falar de religião. Primeiro, falo eu sobre a minha, de acordo?"
Em geral, eles não só saíam rapidamente como nunca mais voltavam.
menina da rádia, essa é uma óptima ideia, mas a minha técnica também se revelou razoavelmente rápida.
para a próxima pode ser que experimente essa abordagem ;)
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