20/02/07

15ª versão da morte de j.*

j. tinha acabado de aterrar no aeroporto da portela vindo da tailândia e era o fim do seu 1º turno como assistente de bordo. tudo tinha corrido bem: os colegas tinham-se revelado bastante cordiais, não tinha havido nenhuma situação de praxe mais desagradável, só tinha passado um dia em bangkok, mas iria ter muitas oportunidades para ver o que lhe faltava.
ia bastante satisfeito com este seu emprego, ele que sempre havia sido gozado pelos seus amigos que não tinham esta profissão em grande conta (já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que lhe perguntavam "chá? café? laranjada?"), tinha conseguido realizado o seu sonho, com a sorte acrescida de ter começado logo nos voos internacionais. mal podia esperar para voltar para casa e fazer o relato de toda a viagem à sua concha, a grande responsável pelo seu actual domínio do castelhano.
no entanto, ao chegar a casa, percebeu que, afinal, o relato da viagem teria de ficar para outra altura, a concha recebeu-o com o recado que a mãe tinha ligado a lembrar que era o aniversário da avó gertrudes e que toda a família estava confirmada para o jantar desse dia. não podia faltar de modo nenhum, a avó gertrudes fazia 95 anos e tinha-lhe oferecido todos os cursos de línguas que tinha frequentado ao longo dos anos... não lhe podia fazer a desfeita de não lhe dar os parabéns.
trocou de roupa e meteu-se sozinho ao caminho, porque a concha tinha de ficar a acabar umas traduções que tinha de entregar no dia seguinte e não podia ir passar umas horas a castro verde.
apesar do cansaço, a viagem não correu mal, só teve mesmo um grande azar quando já estava a chegar perto de casa da avó, numa estrada secundária que era atravessada pela linha férrea o carro parou de repente. devia ser só um pneu furado, j. lembrou-se que lhe tinham dito que aquela linha já não era usada, portanto não se preocupou muito, tinha a música muito alta, baixou-se no banco do lado para ir buscar o telemóvel que, ao começar a vibrar com uma chamada, tinha escorregado do assento para o chão, e não se apercebeu do comboio de mercadorias que não teve tempo de abrandar, porque o maquinista estava a ter uma discussão conjugal ao telemóvel, e não viu o citroen saxo encarnado no meio da linha, do qual não sobrou nenhuma peça que se aproveitasse, sequer para ferro velho.
ao telefone era a mãe, a avisar que a avó gertrudes havia morrido naquela tarde, pacificamente e sem qualquer sofrimento, durante a sua sesta, pelo que já não havia muita pressa na sua ida a casa.

*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…

1 comentário:

Rui Silva disse...

Bolas, não tenho nem uma linha para meter em uso o meu mau feitio. Desta vez está perfeito.