o inverno estava a ser rigoroso, com muito frio, chuva, nevoeiro, e não havia maneira de chegar a primavera. mesmo assim, j. estava confiante e bem disposto no seu novo emprego: era inspector de qualidade numa fábrica de iogurtes, e tinha uma fé renovada nos lacticínios nacionais.
o seu novo ambiente de trabalho era em tons de branco, a higiene imperava, e as pessoas eram estranhamente divertidas, aliás, j. desconfiava que a equipa de investigação de novos sabores andava a fazer mais experiências do que era suposto, mas lembrou-se que só tinha de averiguar da qualidade da elaboração dos iogurtes, se os ingredientes estavam todos em condições, as experiências eram lá com a equipa. além disso, trabalhava nessa equipa uma nutricionista que lhe estava a chamar a atenção, não convinha mesmo nada ser picuinhas logo de princípio.
depois de mais um dia de experiências animadas, em que ele insistiu que iogurte de alface não havia de ser uma boa aposta, mesmo que com um leve aroma a baunilha, reparou que não estava a chover, pelo que resolveu dar um passeio de bicicleta, que se revelou bastante atribulado, ainda havia umas poças de água que encobriam perigosas falhas de asfalto e chegou a cair e a arranhar uma perna e um braço.
voltou para casa contrariado, com a bicicleta pela mão, deixou-a na arrecadação, e descobriu que o elevador estava avariado, antes de amaldiçoar a sua má sorte, teve a presença de espírito de se lembrar que a arrecadação ficava no rés-do-chão e, ao menos, não tinha de subir até ao 6º andar, pelas escadas, com a bicicleta pela mão. pôs-se a subir as escadas, e, apesar das dores no corpo por causa da queda, deu por si a pensar se a nutricionista lhe atenderia o pedido de companhia para o jantar, era uma boa maneira de rentabilizar os arranhões.
quando chegou a casa já ia bem mais animado, resolveu, logo na entrada, acender uma vela perfumada com cheiro a jasmim, um resto da última visita que a irmã lhe fizera, mas que até era capaz de lhe melhorar o ânimo enquanto fazia os curativos e procurava o número da nutricionista, não deu pelo cheiro a gás que estava na casa, nem pela explosão que se seguiu e destruiu completamente o seu apartamento.
por sorte, os restantes vizinhos cujos apartamentos tiveram danos estavam em reunião de condóminos, e não se magoaram.
*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…
2 comentários:
O j., um dos meus ídolos nacionais, a baldar-se a uma reunião de condomínio?? Que tremenda desilusão! Ainda bem que explodiu!!! BEM FEITA!!
que mau feitio, ò rui...
quer-me parecer que deves ter muito boas experiências em reuniões de condomínio, posso garantir-te que as minhas são infernais e, sim!, baldei-me às 2 últimas. desde que tive uma arquitecta a discutir comigo que ela é que sabia interpretar a lei que eu tinha à minha frente e que dizia o contrário do que ela defendia... experiência surreal a não repetir num futuro próximo.
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