j. estava um bocado decepcionado consigo próprio… tinha concorrido ao “um contra todos”, com a grande fé que ia conseguir chegar à cadeira principal, fazer um brilharete e sair de lá com uns trocos acrescentados, e até já tinha preparado a frase final com que ia brindar o apresentador: “já posso dizer que fui tão feliz num programa de televisão”, e depois fazia o seu mais sedutor para a câmara.
realmente, chegou à cadeira principal, mas falhou logo na 5ª pergunta, sobre geografia de portugal - diga qual a ilha onde fica o concelho de santa cruz das flores: a) ilha das flores; b) ilha da madeira; c) ilha graciosa. achou que ilha das flores era uma resposta demasiado óbvia, mas tinha a ideia que não seria na madeira, não quis comprar a resposta, e apostou na ilha graciosa. afinal, era a resposta óbvia.
no caminho para casa, resolveu parar num café. estava um bocadinho em baixo, e sem saber bem como ia contar à mariana que afinal os seus planos para férias tinham de ser adiados quando, no momento em que ia pagar, reparou que tinha o talão do euromilhões na carteira e lembrou-se de confirmar se lhe teria saído pelo menos dinheiro para pagar a aposta.
de repente, o dono do café ficou muito vermelho e exaltado:
“óh amigo! óh amigo! saiu-lhe aqui um prémio de quase 5000 euros! parabéns!”
foi um alvoroço generalizado no café, j. viu mais pessoas a desejarem-lhe as felicidades do que em toda a sua vida. mas, de repente, num ímpeto para evitar mais um abraço, deu dois passos para trás, não reparou que se estava a pôr no caminho de um jogo de dardos e, lamentavelmente, levou com um dardo certo no olho direito. com a dor e com o susto, nem percebeu como tropeçou no gato do café (que, por acaso, estava bastante assustado com toda a agitação que se estava a viver), nem como acabou por cair em cima da arca dos gelados, com a veia jugular cortada pelos vidros.
o dono do café ainda hesitou um bocado antes de devolver o talão premiado à família de j., mas era um homem honesto e, além disso, conseguiu chegar a acordo para lhe pagarem os estragos: o vidro da arca dos gelados e super-maxi e magnuns (de diferentes qualidades), no valor de 340€, que ficaram incapazes de serem vendidos devido ao banho de sangue que levaram.
por sorte, o gato não teve nenhuma consequência de saúde que precisasse de acompanhamento veterinário.
*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…
3 comentários:
Falha técnica: Os vidros das arcas são temperados, em caso de quebra estilhaçam, de forma a não provocar acidentes tipo esse.
Existem seguros de porta aberta, pelo que a família do J. não teria que pagar pelos estragos. Aliás, teria de ser o dono do café a pagar, tendo em conta que o J. morreu devido a um jogo perigoso, e pelos vistos, mal instalado, no espaço do café. Ou então o gajo que está a jogar aos dardos, por homicídio por negligência.
Mas o advogado não sou eu :)
sentimo-nos um bocadinho picuinhas, ò Rui... ;)
pois que tens razão nas falhas que apontas (e eu com esperança que as pessoas chegassem distraídas ao final e não dessem por nada), no entanto:
- o dono do café não era tão honesto como isso e tinha o vidro da arca aldrabado (foi um "primo do conhecido de um cliente que é casado com uma moça lá da terra" quem lhe deu esta ideia depois de um outro acidente parecido, embora com consequências muito menos nefastas);
- quanto ao seguro, mais uma vez se prova da desonestidade do dono do café, que conseguiu ser ressarcido em dobro;
- quanto ao jogo de dados, realmente, estava bem instalado, e foi um acidente. não há qualquer hipótese de acusação por homicídio por negligência uma vez que o dardo não foi a causa directa da morte e que, nem negligentemente, o jogador poderia alguma vez ter achado que iria matar alguém deste modo. quanto muito, do dardo teria resultado cegueira, portanto uma acusação por ofensas à integridade física qualificada por negligência, e uma eventual indemnização pelos danos sofridos.
ah! e o dono do café só devolveu o talão premiado à família porque entre os clientes do café estava um padre que a isso o obrigou. a verdade é essa.
O outro que diz que a menina até fala bem e parece que percebe da coisa tem razão. Esta adenda à morte do J. superou todas as expectativas que eu tinha deste blog.
Gostei do serviço.
P.S. - As arcas dos gelados são cedidas pelo produtor do gelado, logo, se há alguém vigarista seria a Epá ou a Nestlé :), mas esquece o pormenorzito.
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