j. estava um bocadinho ansioso, desde o primeiro dia em que tinha começado a dar aulas naquela escola que tinha reparado na mélinha, uma tímida professora de português, com uns encantadores olhos azuis, e, ao cabo de uns meses de conversa de circunstância na sala dos professores (abençoada a problemática turma do 7.º G que tinham em comum), finalmente ela tinha aceite o seu convite para jantar, seguido de uma ida ao cinema – para que não duvidasse das suas melhores intenções, aproveitava o gosto que tinham em comum pelo cinema de ang lee, bem como a sorte de ter descoberto uma reposição de “banquete de casamento”, na sessão da meia noite, para dar tempo para uma boa conversa durante o jantar.
tinha preparado uma ementa simples, mas toda elaborada por ele: queijinhos recheados, um arroz de pato de se lhe tirar o chapéu, e uns morangos gratinados para sobremesa… o vinho também estava escolhido a rigor… tudo parecia bem encaminhado quando começou a preparar os queijinhos e acho que, se calhar, os pimentos do recheio seriam um bocadinho pesados para o jantar, e nada seria mais desagradável que ver a mélinha com um ar esverdeado, em plena paragem de digestão.
ainda tinha algum tempo, por isso achou melhor ir num instante ao supermercado ver se encontrava os ingredientes para fazer umas tostas de pêra e queijo.
enquanto estava na secção da frutaria à procura das pêras williams, passou, de repente uma criança a fugir da mãe, deu um encontrão contra o expositor das laranjas e derramou-as todas no chão, por sorte, j. estava atento, não escorregou em nenhuma delas, e ainda foi a tempo de apanhar a criança pelo braço e de a entregar à mãe que se desfez em desculpas.
já de saída, ao passar pelo corredor dos produtos de limpeza, também por sorte, reparou que o chão estava sujo com um líquido que se tinha derramado, e pensou que a ida ao supermercado estava a transformar-se numa corrida de obstáculos.
só não reparou, ao chegar à caixa para pagar as compras, que a senhora que estava à sua frente e que tinha acabado de comprar uma faca de trinchar, tinha tirado o invólucro protector e estava a explicar, efusivamente, à menina da caixa a boa qualidade da faca e como era aguçado o seu gume, nem teve tempo para se desviar quando a senhora se virou, de repente, e, inadvertidamente, lhe espetou a faca no abdómen, causando-lhe danos internos irreversíveis (nem sobreviveu à chegada da ambulância).
desde que descobriu o que se passou, no dia seguinte, a mélinha nunca mais aceitou convites de colegas para jantar, e reduziu a conversa com os professores de filosofia ao mínimo imprescindível.
*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…
1 comentário:
Vê bem como é que eu ando que só hoje, quinta-feira, é que eu vim aqui ver a morte do J.
Indesculpável!!!
Será que alguma vez o vais matar de barriga cheia? Ao menos deixa o homem ter o trabalho nos preparativos, consumar o acto e morrer em paz! Ou não!
P.S. - Grato pelo link, vou tentar ter moderação nas borboletas cor-de-rosa :P
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