Casando-se, Prudente casou com uma mulher feia, para não ser passado para trás. Só aplicava as suas economias em terras e apartamentos.
Nunca saia de casa sem levar guarda-chuva e tinha sempre as meias presas com umas ligas muito úteis, que já tinham pertencido a seu pai. Mas, pensando bem, isso já fazia antes de se casar, foi só uma questão de manter os seus salutares hábitos de solteiro, que também incluíam só tomar leite do dia (no próprio dia e depois de fervido durante dez minutos) e nunca se aproximar de qualquer tipo de animal (doméstico ou não) que, como todos sabem, são fontes de inúmeras doenças.
Até que um dia, quando fazia o costumeiro percurso a pé entre a sua casa e o escritório (ia pela R. do Meio, atravessava o Largo da Igreja e virava na R. Formosa até à R. da Quinta) foi obrigado, pelas obras da Câmara, a fazer um desvio pela Travessa dos Rouxinóis e depois pela Travessa da Andorinha que ligavam a R. Formosa à R. da Quinta.
Certamente, não sabia que, entre as duas travessas, havia um ginásio clube que estava em mudanças. Ia distraído, quando, de repente, um gaiato a fugir de outro dá-lhe um encontrão, e Prudêncio, sem perceber como, dá por si aos pulos numa cama elástica, experiência completamente nova e que o entusiasmava mais e mais a cada salto.
Quis tentar saltar cada vez mais alto, já era hora do almoço e estava quase a chegar à lua. De facto, pelas 14.30, conseguiu lá chegar.
Quando pousou, pensou que era estranho porque é que os americanos e os russos faziam um espectáculo tão grande com o feito, “tudo para aparecerem nas televisões”, pensou, e depois sentou-se a apreciar a Terra e os outros planetas. Nem se lembrou dos clientes à espera, no escritório, para tratar das contas.
De repente, olhou para o relógio e viu que já eram 19 horas. Tinha de voltar para o jantar, era quarta-feira, dia de jaquinzinhos com espinafres, o seu prato preferido.
Antes de se por a caminho, pensou que era melhor não dizer nada à mulher sobre a sua tarde. Ela ia embirrar, dizendo o costume, que ele nunca a levava a passear a lado nenhum.
ATENÇÃO - dão-se alvíssaras a quem souber localizar a autoria da citação que deu origem a este devaneio. eu, francamente, não sei, tinha isto guardado sem a identificação da frase inicial. o resto, para o bem e para o mal, é meu.
NOTA FINAL - hoje estou demasiado sonolenta para ir à procura de notícias. espero voltar, amanhã, ao meu costumeiro espírito do contra e sair deste limbo absurdo.
9 comentários:
Já conhecia esse teu magnifico texto. Devaneio das tuas aulas de escrita criativa.
Isto do verão também faz os seus estragos. Agora deixa-te de sonolência e toca a trazer-nos novidades insulares.
Apre!
bolas! fui apanhada ;)
Foste mesmo apanhada. É para veres que eu estou com atenção a este teu blog. E gostei que tivesses comentário. Porque não responder mais vezes aos comentários? Continuo sem saber de quem a frase inicial...
Não sei de quem é o comentário e não conhecia este teu «devaneio». Como vês já voltei ao teu blog, depois de um período de ausência, certamente sentida e chorada. Já agora aproveito para anunciar publicamente que vou voltar a ausentar-me deste teu blog, porque vou para a terrinha, mais conhecida como a cidade do amor brasileiro, LOL.
Sem mais para contar, despeço-me agradecendo entusiasticamente o tempo dispensado e perdido de quem esteve a ler este meu comentário.
Beijos
Valter
amigo paulo. é mesmo verdadinha que não sei quem é o autor da frase inicial. tenho uma vaga ideia de que é um autor brasileiro, mas não vou mais longe.
a gerência pede desculpa e reconhece (uma vez sem exemplo) a ignorância.
Algumas preocupações deste senhor parecem-me bastante actuais. Estou a pensar na bicharada (independentemente do perigo das doenças) e nos cuidados com o leite.
Não sei se é assim nos Açores, mas parece que uma das maravilhas da biotecnologia moderna é, para aumentar a produção de leite, “encharcar” as pobres vacas em hormonas.
Dessa forma, ainda antes de a sua descendência ter visto o raiar do sol, já as ditas estarão em estado de abundante predisposição para serem ordenhadas.
É de prever que parte das ditas hormonas – femininas, naturalmente – passem para o leite que, como se sabe, é despreocupadamente consumido por criaturas de todos – antigamente dir-se-ia “de ambos” - os géneros.
Não me espanta que, a par da crescente banalização cultural das opções alternativas, o leite seja um assassino silencioso – quem diria – da virilidade da civilização ocidental.
Posto isto, e porque dá-me ideia que as minis ao pequeno-almoço me estão a bulir com o fígado, sabes se ferver o leite durante dez minutos mata as hormonas? Se é que as hormonas podem ser mortas, e ainda mais, no caso, as femininas.
Em alternativa, podes indagar, e apurar com segurança, se esta prática é seguida por aí e, na negativa, indicar-me uma marca de leite que se venda no continente? Continente, por oposição a ilhas, pode ser no “Jumbo” ou noutro sítio qualquer que não implique atravessar meio Atlântico.
Fico à espera.
P.S.
Brilhante campanha de marketing: “Beba leite dos Açores, o leite que não faz desaparecer os pelos do peito” ou “Se é macho, e quer continuar a ser, beba leite dos Açores”.
Beijos,
Ops, no meu afã homofóbico carreguei nisto duas vezes, podes apagar?
é sempre bom saber que alguém ainda consegue ter ideias mais estapafúrdias (e, no entanto, estranhamente pertinentes e relevantes para a continuação de vida no país) que as minhas. obrigada antónio, muito obrigada.
se a fervura do leite mata as infelizes hormonas femininas, não sei, mas, de facto, quando eu era pequena e, em casa da minha avó se bebia o leite directamente trazido das suas vacas, era deixado ferver durante bastante tempo.
posso tentar fazer indagações sobre as consequências da fervura nas nefastas hormonas e, deste modo, contribuir para a tua masculinização.
é uma questão de enorme importância, e não pode ser descurada.
mas, não invalidando informação que possa vir a recolher sobre esta matéria, e assim de repente, tenho a ideia que as nossas vaquinhas vivem felizes nos seus pastos, onde comem erva ou "silagem?cilagem?" (um preparado de erva e sal, acho eu, que comem quando os pastos estão mais secos) e onde não se abusa das hormonas. portanto, se te sentires muito ameaçado pelo leite de proveniências duvidosas, podes optar por leite terra nostra (por exemplo), se bem me lembro, vende-se no próprio continente ;)
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