gosto particularmente de literatura brasileira e já li este autor, portanto, anotei o título e julguei que ia ficar por isso mesmo quando um homem (particularmente engraçado, inteligente e perspicaz) pergunta: «então está a recomendar um livro em brasileirês?»
passou-se à frente do incidente e eu fiquei a pensar que este homem deve aspirar a ler a tradução para o português-médio-do-prédio-dele da obra de machado de assis ou de jorge amado, por exemplo.
assim de repente, já que está tão preocupado com o português da boa literatura, porque não passar para essa única correta língua a obra de mia couto, de vitorino nemésio, de aquilino ribeiro ou as canções de amigo? é que sempre dá um certo trabalho a ler, às vezes até é preciso ir buscar um dicionário e tudo. a vantagem é que, na loucura, com esse trabalho vão-se alargando horizontes, vai-se apreciando a riqueza da mesma linguagem usada em contextos históricos e geográficos completamente diferentes, com sotaques que não são ouvidos, mas adivinhados, e expressões idiomáticas riquíssimas. é a magia da leitura.
tudo isto pensei eu com os meus botões e voltei a concentrar-me na problemática dos policiais «de quarto fechado».
na segunda sessão foi perguntado se a plateia estava a gostar do livro recomendado e a resposta pronta foi: «é muito brasileirês!», seguido de um risinho cheio de auto-contentamento.
palavra de honra que eu senti vergonha pelo homem.
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