07/01/10

aqui fica lavrado o motivo pelo qual me parece que a alma narradora de «a vida inteira», de miguel esteves cardoso, é uma alma extraordinária:

As pessoas têm a mania de conversar, de fazer perguntas, de tentar conhecer-se
umas às outras, de «chegar ao fundo» das coisas que lhes causam curiosidade,
como se os corpos fossem terrenos e nós fossemos petróleo. Nós não estamos no
fundo de nada. Estamos, simplesmente. Como a alma de Eva está nos dedos que
deixam cair cigarros, ou na maneira de travar, ou de dizer «Obrigada» quando lhe
dão o troco. Estamos nas mentiras e nos fingimentos, nas cerimónias e nas
manias, tanto quanto nas coisas ditas profundas, que obcecam a humanidade, só
porque são mais espectaculares. Desde a caixa de Pandora aos livros de Freud,
passando pela lâmpada de Aladin, estamos fartas de ser tratadas como
espécies profundas - como aqueles bichos muito feios, incomestíveis e
irrelevantes que vivem nas camadas mais escuras da terra e do mar. Nós também
gostamos de estar no centro das coisas, também gostamos de luz - não somos
espíritos dos subúrbios.


é uma edição da assírio e alvim e está na página 30 (e, em bom rigor, também está em 3 linhas na página 31).

3 comentários:

Menina da Rádio disse...

eu cá acho que o miguel é um escritor inspirado.

euexisto disse...

O MEC é um génio. Mera opinião, mas é o que acho.

rita disse...

e eu concordo que o senhor é um génio inspirado.