a disposição de j. melhorava sempre com os primeiros raios de sol mais primaveris, até o trabalho na secção de pessoal do instituto público em que trabalhava lhe parecia ligeiramente mais divertido.
nessa terça-feira, j. até conseguiu despachar-se para sair às 17.30 certinhas, deixou a secretária bem arrumada para o dia seguinte e, já de saída, ao passar pelo gabinete de apoio jurídico, teve uma ideia tão repentina que, quando deu por ela, já tinha sido dita em voz alta: “joaninha, queres ir passear de eléctrico até belém e lanchar um pastel?”.
depois de uns segundos de hesitação por parte da joaninha, em que julgou que ia morrer de vergonha à frente dos outros 2 juristas ainda na sala, ela fez o seu melhor sorriso e respondeu que era um convite extremamente simpático, que tinha todo o gosto em ir com ele.
por sorte, o primeiro eléctrico que passou era um 15 dos mais antigos, e até conseguiram lugares sentados, enquanto, a joaninha ia contando uma história a propósito de uma situação que lhe tinha ocupado a tarde, entre estudo do código do procedimento administrativo e a documentação que lhe tinham enviado, se um determinado acto seria para anular ou revogar.
certamente que este seria um tópico interessante para quem gostasse muito de direito administrativo, o que não era o caso de j., portanto, entreteve-se a apreciar a bela companhia em que ia (apesar do tópico bastante maçador, quando saíssem do eléctrico ia tentar começar uma conversa sobre cinema), a própria viagem de eléctrico e o sol que ainda brilhava lá fora.
aliás, entusiasmou-se de tal maneira que deu por si a abrir a janela e a por a cabeça para fora do eléctrico, mesmo na altura em que a joaninha reparou e gritou para ele ganhar juízo e por a cabeça a salvo, bateu contra um poste de electricidade, ali quem vai numa zona mais estreita da r. 1º de maio, e ficou muito zonzo.
a joaninha ficou receosa que tivesse ficado com um traumatismo craniano, e insistiu para saírem do eléctrico no hospital egas moniz, para j. ser visto por um médico, apesar de ele dizer que era só uma dorzinha de cabeça, que não era nada de sério.
já estavam dentro do hospital, a passar na sombra de um edifício, quando ouviram um berro assustador e um homem caiu em cima de j., que teve morte imediata com uma fractura da coluna cervical.
joaninha veio a saber que se tratava de um alcoólico em recuperação que estava a ter uma alucinação e que confundiu a janela com uma porta (por sorte, só fracturou as pernas e um braço na queda e conseguiu prosseguir a sua recuperação), além disso, até hoje, nunca mais conseguiu comer pastéis de belém e só anda nos eléctricos novos, em que as janelas não abrem.
*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…
1 comentário:
A miúda para insular conhece muito bem as minhas vizinhanças...
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