06/02/07

13ª versão da morte de j. *

o dia começou com vários tons de cinzento e chuva torrencial, e ainda piorou durante o horário de expediente: j., por azar, não arranjou muitas desculpas para sair do gabinete onde trabalhava, e a d. luísa, que dividia o espaço com ele, estava muito indecisa sobre qual o sofá a iria comprar, mesmo assim, a escolha já estava reduzida a um kramfors e um lervik. aliás, desde que o ikea inaugurou em alfragide, todas as semanas havia o difícil processo de escolha de mais uma peça, que era discutido com todos os colegas do trabalho. ele não fazia ideia como ela conseguia guardar tanta coisa num t2 na baixa da banheira.
apesar disso, parecia que estava no bom caminho para melhorar, durante a tarde, a tatiana, a nova assistente social da instituição, foi-lhe pedir ajuda porque o portátil tinha “morrido” e ela estava desesperada a pensar em todos os documentos que teria perdido. é claro que j. se ofereceu logo para lhe tentar resolver o problema e, é claro, que a tatiana se ofereceu para lhe cozinhar o jantar enquanto ele lhe ressuscitava o portátil.
o serão correu muito bem, os documentos foram devidamente salvos, o jantar foram umas óptimas costeletas com batatas recheadas com brócolos, o gelado de chocolate para sobremesa também foi uma ideia simpática e ficaram a conversar durante umas horas. j. estava muito entusiasmado com esta nova colega, e ela também não lhe era indiferente. havia, definitivamente, um novo ânimo para ir trabalhar.
pelo caminho para casa, o mau tempo continuava e estava cada vez pior, ainda chovia, havia umas rajadas de vento muito fortes, e alguns relâmpagos e trovões, pôs o rádio mais alto, e deu por si a cantar “toda a gente sabe que te amo” do miguel ângelo a plenos pulmões… como detestava esta versão da música (de tal modo que defendia que o neil hannon devia ter processado o cançonetista de cascais pelo atrevimento), o entusiasmo estava a bater mesmo forte.
estava parado num sinal vermelho, a cantar alto de olhos fechados, quando caiu o semáforo em cima do seu renault 4l. a morte foi imediata, não se tendo percebido se foi do susto, do choque eléctrico provocado pelos cabos do semáforo e pela chuva ou de ter ficado espalmado na carroçaria do carro.


*eu posso ser contra a pena de morte, mas os acidentes acontecem…

1 comentário:

Rui Silva disse...

Lindo. O meu secreto receio de levar com um semáforo em cima é partilhado por mais alguém no mundo. E, pelos vistos, já provocou baixas!