08/08/05

andar de carro nesta ilha, especialmente quando ando mais uns quilómetros fora de ponta delgada, faz-me lembrar o filme uma história simples.
sou capaz de defender que, nestas circunstâncias especiais, qualquer um de nós fica reduzido a um velhote a cumprir a missão da sua vida: reencontrar um irmão a quilómetros de distância, tendo como meio de transporte um cortador de relva.
com as devidas diferenças, claro, que nós não estamos nos states.
assim, em vez de cortador de relva, temos os turistas que se divertem imenso a apreciar a paisagem, conduzindo a 40 km/h, em zonas onde é permitida mais velocidade, e, por vezes, ainda abrandam para discutir um detalhe qualquer, especialmente, quando não há possibilidade de serem ultrapassados.
além disso, não temos um alce a atravessar-se, repentinamente, no caminho mas podemos contar com uma mudança de manadas de um pasto para outro, ou mesmo, se tivermos muito azar, um cavalo, com um súbito desejo de morte, a atravessar a rua vindo do nada.
ainda temos tempo para maturar decisões, velhinhos pensativos e gente mais nova, uns com mau feitio, e outros que são boas pessoas, discussões que se arrastam durante gerações, tempo instável, sismos ocasionais, coelhos atropelados nas estradas (não fui eu!), fenómenos de origem vulcânica e, as sempre presentes, bucólicas vacas pinceladas na paisagem.
se calhar, até nem era mal pensado entrar em contacto com o sr. david lynch, e dar-lhe umas dicas sobre a ilha. quer-me parecer que temos cá todos os ingredientes para mais um dos seus filmes ligeiramente diferentes.

por outro lado, se fosse para usar actores amadores locais, e assumindo a tendência absurda do filme (acho que se consegue sem grande esforço), também podíamos entrar em contacto com o sr. emir kusturica. um destes dias, hei-de relatar alguma experiência que se enquadre em algum dos seus filmes. apesar da ausência de ciganos nas redondezas, aposto que consigo.

7 comentários:

Anónimo disse...

Não te sabia também argumentista. Mas como escreves bem és capaz de te safar.
Um filme em S. Miguel, para além de ter cenários naturais fabulosos, tinha de ter legendas...devido a esse vosso sotaque...

rita disse...

e porque é que começaste o comentário tão bem... para o acabar tão mal?
vai ficar catalogado na secção do humor fácil e, vá-se lá saber porquê, muito apreciado pelos continentais...

Anónimo disse...

Minha querida Rita,

Este teu blog é uma delícia.
Por instantes fiquei com a sensação de te ter por perto e pude matar saudades das tuas observações cheias de perspicácia, clarividência e inesperados detalhes, que despertam o espírito e confortam a alma.
Ainda estou um pouco toldado pela sensação de terno entorpecimento que tenho quando contenho a satisfação de, depois de um período de ausência, ver alguém de quem gosto. Como sabes não sou muito efusivo a manifestar a alegria desses momentos.
Bom, chega de conversa piegas que, alias, não se coaduna com o teor do comentário que tenciono fazer a respeito do senhor que fervia o leite durante dez minutos.
Estou muito contente, gostei de te “ler”.

Beijos.

rita disse...

antónio, que saudades!
ainda bem que cá vieste e que apreciaste.
tento, desesperadamente, que isto não seja só um exercício de narcisismo, mas também uma maneira engraçada de continuar a manter as amizades que ficaram pelo continente.
se achaste graça, é sinal que o meu objectivo está a ser minimamente cumprido, e eu fico toda contente ;)
um beijinho (cheio de saudades das nossas conversas que, agora, sempre podemos retomar, embora neste novo formato internético)

Anónimo disse...

É verdade Rita, consegui trazer o António a visitar este teu blog.
Claro que desfiz-me em elogios a tal bem conseguido blog. E de tal forma foi apreendido pelo António que ele resolveu dar cá uma volta. E ao que consta gostou mesmo.
Quem é amigo.
PS: devias instituir o prémio do melhor visitante do teu blog...acho que ganhava!!!!

rita disse...

sim, parece-me que, de facto, deves ser o melhor visitante do blog e, sem margem para dúvida, o mais activo a provar as vantagens da caixa de comentários.
como recompensa sempre posso referir o teu nome, e a tua sábia postura na vida, volta e meia.
por enquanto, é o melhor que se arranja.

quanto a teres trazido o amigo antónio, pois que fizeste muito bem. o rapaz também se está a mostrar activo nos comentários e a sua perspicácia, particularmente aguçada, mantém-se na forma escrita e é bastante apreciada.

Anónimo disse...

Ora bem. Quanto a referires o meu nome devo dizer que estou a pensar em registá-lo e depois para o usares tens de pagar uma taxa de utilização.
Mas se for para continuar a dizer bem ... e como és amiga, arranja-se uma isenção ou um subsídio da U.E.